Enne

22 jun

Introdução:
Este é um romance que fala de amor em sua excelência mais sublime. Algures realizará o infinito desejo do para sempre. Interrompido pelo destino encontra sossego nos braços da esperança de um dia vivê-lo.

Elizabete e Pedro têm parentesco distante. Quando se conheceram quase não conseguiam trocar duas palavras. Pedro não lhe dava a mesma atenção que seu irmão mais velho. Ele o achava hipócrita por querer estar ao lado de uma menina apenas por ser da cidade, afinal, o que ganharia com isso?

As férias chegavam ao fim e o clima entre os dois mudou com o tempo, as palavras que eram poucas iam multiplicando os olhares intensos. Em uma noite de lua cheia todos falavam alto nos fundos da casa, enquanto Pedro observava Elizabete sentada no batente da varanda. De repente ela exclama olhando no fundo dos seus olhos:

– Por que você me olha como se quisesse sempre dizer algo? – Por alguns instantes ficam mudos, então ele responde.

– Porque tenho a impressão que você não merece ouvir o que tenho a dizer!

– E o que é, fala? Fiz alguma coisa que não gostou ou simplesmente não gosta de mim?

– Pra quem vem da cidade você é bastante ingênua, ou então se faz.

– Não te entendo!

Elizabete sai em direção ao portão, em segundos ele a segura pelos braços e a beija subitamente. Em nenhum momento ela tenta detê-lo e a partir daí os dois encontram-se às escondidas. É um relacionamento que não teria a aprovação de seus pais, mesmo sabendo que vivem distante um do outro e que isso não daria em nada.

“Nossos lábios quentes vão cobrindo de lástimas nosso pesar em saber que não mais nos veremos daqui alguns dias.”

Ninguém soube do amor que os dois sentiram naqueles dias. As lágrimas da despedida não foram apenas pelos momentos felizes passados entre primos e tios, mas da saudade antecipada, da tristeza de saber que a distância amornaria os sentimentos e que talvez nunca voltassem a se encontrar.

“O tempo adormece os pensamentos e como num sonho, em flashes, a memória vai os recobrando.”

Após a partida, por cartas, fizeram juras de amor, mas o tempo passou depressa e tudo mudou. Nem lembranças, nem vontades restaram daquele tempo. As obrigações da vida de adulto não os deixava ter ilusões. As notícias chegavam de suas conquistas, de seus feitos, e, como se nada houvesse acontecido, eles se anularam.

Vinte e sete anos mais tarde, Pedro soube de sua viuvez. Por um instante pensou em lhe falar, já que agora, as notícias chegam via internet. Seria uma questão apenas de pesar, cordialmente, mas conteve-se. Durante todo esse tempo mantiveram silêncio, apesar de saberem um do outro através de sites de relacionamentos. Pedro a pouco olhou suas fotografias, quis fazer comentários, mas e daí, em que isso os aproximaria. Continuariam à quilômetros de distância. Deixou para lá. Meses após, Pedro também enviuvou. Levava a vida debruçado sobre seus projetos, viagens e afins.

Elizabete não encontrava tempo para nada, nem mesmo para chorar o marido morto. Tinha responsabilidades a cumprir, engajada em projetos sociais que lhe consumia. Participava de congressos devido aos prêmios que recebera, e, sem saber, estavam envolvidos com os mesmos grupos de pesquisas.

O tempo não os fez mudar apenas fisicamente. Não existiam mais temores, a dor da separação não os perturbava mais, ficando apenas lembranças embutidas e longínquas. Para Elizabete nem mesmo as fisionomias de Pedro conseguem se definir, nada, nada ficou daqueles tempos além de um carinho escondido.

Numa reunião rotineira…

– Professora, há possibilidades de contarmos com sua presença amanhã na Conferência Nacional?

-Sim podem contar comigo!

No dia seguinte, estavam reunidos quando alguém a chamou atenção.

– Sônia quem é aquele senhor sentado ao lado do Superintendente?

– Chama-se Pedro. É representante do interior, mestre em Cultura Folclórica. Está com a comitiva regional.

– Já devo tê-lo visto em outro evento, me parece familiar!

– Conversei com ele agora pouco e falou-me que nunca havia participado dos eventos do sul.

– Hum!

– Simpático, não? Na primeira oportunidade apresento-o a você, ok!

Elizabete não tirou mais os olhos de Pedro, mas em nenhum momento passou-lhe à cabeça o primo distante, apenas tinha curiosidade de saber de onde o conhecia.

Durante toda conferência ele não a viu. Chegada a hora do café, reuniram-se no saguão quando a secretária de Elizabete exclamou:

– Elizabete!

Ela olhou ao chamado.

– Pois não!

– Quero apresentar-lhe o senhor Pedro Schimit.

Sorrindo, Pedro estendeu-lhe a mão e imediatamente a reconheceu. Não mudou em nada. A mesma doçura, o mesmo jeito de olhar. Emudeceram. Elizabete desconcertada não pôde esconder sua surpresa.

– Schimit? É o Pedro da família Schimit, de Lua Nova?

– E você Elizabete Schimit, não tenho dúvida!

– Sim!

Apertando com força a mão um do outro, os dois esqueceram tudo ao redor por instantes. E depois se abraçaram como se o mundo fosse acabar.

– Pedro que prazer em vê-lo. Jamais imaginei que trabalhássemos pela mesma causa.

– Estou tão surpreso quanto você!

– Então já se conhecem? Pergunta Sônia sem nada entender.

– Sim amiga, somos primos. Não nos vemos há alguns anos.

– Mas amiga nunca soube de seu sobrenome Schimit.

– Sim. É que deixei de usá-lo quando casei… Elizabete tenta explicar e é salva do constrangimento quando são chamados a ocupar a mesa do auditório. Chegou ao final do evento todos dispersaram. Pedro permaneceu sentado em seu lugar e Elizabete não estava mais lá. Ainda sob efeito de choque reunia seus papéis, pensativo.

“Ela continua linda. Jamais se aproximará de mim. Foi embora sem se despedir após tanto tempo…”.

– Dou milhões por seus pensamentos!

Pedro virou-se para vê-la e com um lindo sorriso estendeu-lhe as mãos.

“As dores do passado adormecem aos poucos e no fim tornam-se leves e doces lembranças, iguais os sonhos bons”.

– Você não muda nunca. Sabe em que estou pensando, ou ainda tem dúvidas?

Sorrindo Elizabete o abraçou forte e ficaram ali parados em silêncio. Seus corações batiam forte. As palavras fugiam. Após longo tempo ela o perguntou:

– Está livre agora?

– Estou!

– Então venha comigo. Quero retribuir um dos melhores momentos que você me proporcionou quando estive em Lua Nova.

Ela o pegou pelo braço e o levou para ver o por do sol. As palavras insistiam em não vir. Os dois ali por horas sentados no píer. O sol se punha, o canto das gaivotas anunciava o anoitecer. De repente ela balbucia:

– Lembra?

– O quê?

– Em Lua Nova nosso primeiro passeio foi para ver o por do sol, foi lindo.

– Sim. Ficamos ali esperando a lua. E você lembra como aquele dia terminou?

“O silêncio trouxe o melhor daquele reencontro. Cheio de surpresas e ilhas desconhecidas. Não saber no que aquilo possa dar. Que caminho tomará nas duas idas da mesma estrada”.

Pedro selou o fim de tarde espalmando sua mão suave sobre os olhos de Elizabete; o fechando como dantes e colocando seus lábios delicadamente aos dela.

Durante os sete dias seguintes, deixaram de lado suas agendas de compromissos e fizeram o que no passado a imaturidade não os permitiu fazer. Agora não havia mais a inocência e nem o medo de serem descobertos. Não tinham nada a esconder. Entretanto, a sensação de medo agora é outra. Mas o que temiam se não lhes falta autonomia? Que insegurança pode haver se na verdade sempre sonharam com esse encontro?

A primeira noite de amor…

Entre os dois as coisas não podiam ser diferente. Nada de quartos de hotéis impessoais, nada planejado. Tudo aconteceu naturalmente à beira mar. Um encontro marcado por pequena presença do passado. O luar seguindo seus passos, enchendo de romance cada toque. Vagarosamente despiram-se do medo e daquele constrangimento que os remetia ao primeiro beijo. Hoje sem pavor, apenas um suave desejo.

Pedro voltou para sua cidade. Foram dias de saudades e muita expectativa. Não foi nada fácil para ambos explicar aos filhos de alguém que nunca tiveram conhecimento. Em poucos dias Elizabete estaria partindo para Lua Nova. Antecipou suas férias para resolverem o impasse de onde morar daqui para frente.

– Mãe – pergunta a filha mais velha de Elizabete – pretende mesmo voltar ou vai morar em Lua Nova e nos abandonar?

– Não fale assim querida. Nunca os deixarei. A questão é que preciso conhecer a vida dele de perto e ajudá-lo no que for preciso. Alguém terá que renunciar o lugar onde vive. Pedro terá mais oportunidade aqui do que eu lá em Lua Nova. Quando eu voltar de férias ele virá definitivamente para morar aqui, mas preciso lhe dizer que também não moraremos com vocês. Não achamos justo tirar-lhes a privacidade.

– Entendo! Também não me acostumaria, apesar de ficar triste.

Dias depois Elizabete embarca. Duas horas mais tarde anuncia na rede de televisão:

“Desastre de avião com destino à lua nova não deixa sobreviventes.”

No aeroporto o desespero toma conta de Pedro. Sem saber o que fazer nem pensar, fica em estado de choque. Acompanhado de seu filho é imediatamente hospitalizado.

Após o funeral Pedro retorna à Lua Nova. Na praia, Elizabete aparece-lhe e diz:

“Não fique triste Pedro, estarei te esperando e viveremos a vida inteira o nosso amor.”

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