As mais perfeitas aventuras do interior do gênio.

23 mar

Borges, causador de inquietude naquele que lê sua obra. Suspense, deslumbramento são adjetivos menores daquilo que se sente com suas histórias recheadas de aventuras místicas e vibrantes.

Não poderia ser diferente a expectativa da chegada de sua obra ao contato com o leitor brasileiro ficcionado por tudo que o gênio de “O Aleph” traz em sua obra.

Depois de ter dado a volta do mundo, a obra de Jorge Luis Borges está finalmente chegando ao Brasil. Após Nova Antologia Pessoal, lançada pela Editôra do Autor, acaba de sair Ficções aos cuidados da Editôra Globo. Esperadas com impaciência, permitem ao leitor brasileiro um primeiro contato com uma das obras mais estranhas e mais pessoais da nossa época.

Avêsso à composição de romances maciços em redor de uma idéia para cuja exposição oral bastam poucos minutos, o nosso autor prefere simular que êsses romances já existem e apresentar um resumo, um comentário dos mesmos. Daí, talvez, a densidade excepcional de seus contos, que têm algo do pequeno cone reluzente, a que se refere numa hospedaria. “Peguei-o na palma da mão por alguns minutos; lembro-me de que seu pêso era intolerável, e que, depois de retirado o cone, persistiu a pressão”.

Mestre do gênero, cultiva-lhe tôdas as variantes – o apólogo, a parábola, a fantasia, a lenda, o conto de mistério, o fantástico, o policial, o simbólico, o filológico – tôdas, menos a humorística. A ação encobre sempre outra, que aponta no fim da história e se entrelaça com a primeira do modo mais inesperado; e as duas, juntas, encobrem um sentido oculto.

No Prólogo da Nova Antologia Pessoal, Borges assinala os seus temas preferidos: “a perplexidade metafísica, os mortos que perduraram em mim, a germanística, a linguagem, a pátria, o paradoxal destino dos poetas”. Poder-lhes-iamos acrescentar a cabala, a mística, a metempsicose, e indicar alguns de seus motivos principais: as formas geométricas, assim com os espelhos e os labirintos, realidades ambíguas que são a sua obsessão e influem sôbre a estrutura de suas narrativas. O assassino substitui-se à vítima; o herói encarna-se no traidor e vice versa; a literatura, espelho da vida, impõe a esta os seus moldes; o mundo imaginário acaba sendo mais forte que o real. Uma conspiração de eruditos inventa outro universo, escreve-lhe a história e a geografia fictícias, constrói-lhe a língua, compõe-lhe a enciclopédia. Um homem em centenas de noites a fio sonha que está criando outro; quando afinal um deus, entrevisto no sonho, autoriza a encarnação do semelhante sonhado, o sonhador percebe êle próprio não passar do sonho de um terceiro. O acidentado que perdeu a capacidade de esquecer morre esmagado sob o peso de suas lembranças. Um condenado à morte alcança, no momento da execução, a graça de uma suspensão individual do tempo.

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