Resenha do livro “A folha como véu” de Luiz Fernando Medeiros de Carvalho.

24 ago

O capítulo, revelador, não por trazer o nome da obra, mas por revelar o verso bem no fundo, o jogo dos verbos citados. O íntimo de a folha de papel vai despindo vagarosamente os pensamentos inconscientes, as imagens da linguagem sobrepondo o que o poema “p/ Cri” traz à tona:

Sua pele, sua palma aberta
aceita minha escrita leve.

Luiz Fernando, ora revela, ora é revelado através do profundo desejo de romper as camadas, as veias finas das metáforas que entranham uma a uma as folhas de o papel em que Armando Freitas Filho punha seu verso. Sem a objetiva noção da descoberta de uma próxima fase, a próxima página preenchida, o deslumbre do inconsciente, a magia da palavra que o vai despindo descontroladamente sob seus pensamentos e a mão o guiando, o levando, e é esse o desenho que Luiz Fernando desvenda. O sensível e avassalador manejo das mãos sobre a folha de papel. O desejo escondido sem as frestas que ficam entre o pensamento e a realidade, transcendendo a realidade quase como o gozo final, aquele que faz pasmar diante do nada, enfim, o prazer se faz. Daí a ideia do poema tocar ou ocupar outra margem, tocar o vazio.
Ainda sob o desejo de transcender folha por folha deste véu, sem ferir o sono da folha de baixo, usufruindo apenas das possibilidades é que o autor vem falar de transparência. E que transparência seria essa? A transparência da alma exposta no papel, dos anseios ao deixar cair os panos, os traços que o levaram a despir-se dos sonhos e pensamentos mais intensos e prendê-los por vez, e depois soltá-los ultrapassando folha por folha sem medir o tempo e o espaço, do ato tão suave quanto à brisa de uma tarde de outono. Transparência essa, que “pelo menos” cai sobre nós, leitores, capazes de absorver o desejo de não sofrer a passagem do tempo, de não perder o fio das palavras. Ato que a mão vai conduzindo, desvendando os segredos do traço materializado em cada página.
A travessia descrita por Luiz Fernando é a leveza da mão transcrevendo o pensamento inopinado, reinventando-se.

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