Arquivo | Conto RSS feed for this section

Dona, um ponto final

15 set

Aos poucos o desejo incontrolável de saber notícias tuas foi secando o lago. As lástimas também secaram. A noite acabou em dia e pela manhã percebi ser outono outra vez. As árvores continuavam a bailar. Pessoas passavam pela rua num corre-corre. Aos poucos fui me dando conta de que o tempo passou rápido demais. Era 1987. Toda a vida enumerada outra vez, capítulo por capítulo. Livros espalhados pelo chão, recortes, fotografias, bilhetes, rosas secas, lembranças embrulhadas com nó frouxo não sufocavam mais; sem nenhum valor. Era hora de partir. O casarão, o portão de ferro, a escada, pessoas falando sem parar, os flagrantes, os pequenos delitos pra te encontrar às escondidas… A vida alcançou um momento de sossego. Sem saber, cada coisa foi tomando o seu lugar.

Te Conto – Introdução

11 ago
Talvez eu não tenha lançado meu coração pra você conseguir enxergá-lo com o fervor que os apaixonados esperam.
Talvez um dia te conte o percurso dessa paixão desenfreada e ria junto contigo do quão distante isto tudo possa estar, ou quem sabe, ainda que possa parecer tola, eu amasse este folhetim – para não parecer cópia barata – e comece a rabiscar uma história de amor com um final feliz.

Dona – Uma Introdução

18 jul

Vinte e cinco horas, tempo exato e contado minuciosamente pelo relógio psicológico. Talvez minutos antes ou depois, o que pouco importa, levando em conta os anos de espera para que as palavras fossem juntando-se sorrateiramente em busca da frase perfeita. Sorri, como se o sorriso transformasse décadas em textos prontos de uma história resumida.

Sorri!

Os eucaliptos soavam de um lado a outro da estrada debruçando suas folhas secas anunciando minha passagem, cobrindo os sonhos de realidade como uma imensa onda cobre o barco no berço do mar.

Sorri!

Dei-te sem palavras o abraço mais longo e o sorriso mais terno que os arvoredos jamais puderam presenciar; partiste numa viagem longa…

O número prefaciado é exatamente o mesmo, talvez um tanto mais, um tanto menos. Que importa o tempo contado cronologicamente, se a verdade está sempre no ar?As paisagens, o lugar, a trilha. Todos os contos são um pouco de personagem, um pouco de persona. A voz harmoniosa e delicada sussurrando aos ouvidos estará cantando as belas canções de amor que os amantes preservarão aquecidas sempre que  para ti voltar.

E tão bela e casta lhe parecerá a lua!

Parágrafo – Mini Conto

27 jan

Violência Urbana

Era em plena manhã de sábado. Um provável sábado tranquilo. O assaltante que amendrontava à todos era apenas um menino, uma carinha inocente, inteligente, uns 12 anos de revólver em punho, que parecia pesar em suas mãos tão pequenas. O som de sua voz soava ora aguda, ora grave. Verbo indefinido. Olhar frio, nem medo, nem rancor; experiente ao manejar o corpo franzino. Menino esperto, reticências ameaçadoras. Dias contados antes da morte!

Recontando…

27 jan

João e o pé de feijão.

 Era uma vez um menino muito esperto chamado João. Ele vivia com a mãe numa humilde casinha e sempre sonhou em um dia poder encontrar o seu pai, desaparecido desde quando ele ainda era muito pequenino.

A vida de Joãozinho e da sua mãe não era nada fácil. Sobreviviam das plantações, toda criação de ovelhas que seu pai lhes deixou já haviam sido vendidas para suprir as necessidades dos dois. Era muito difícil para uma mulher cuidar sozinha de um rebanho com uma criança pequena.

Agora que João já estava mais crescidinho. Dona Maria o colocava para ajudá-la na horta e a vender as verduras na cidade, mas infelizmente neste verão, uma enorme tempestade acabou com o trabalho do ano inteiro e só o que lhes restou foi uma velha vaca que nem produzia mais leite.

Um dia Joãozinho propôs a sua mãe que vendessem a vaca, pelo menos conseguiriam dinheiro para recomeçar a plantação. Então, foi João com a vaca a caminho da cidade. Durante o percurso, João deparou com um senhor, aproveitou para oferecer-lhe a vaca, mas antes que o menino pronunciasse qualquer palavra o velho lhe disse:

– Olá menino, para onde vai com essa vaca?

– Vou em busca de um comprador para esta vaca. – respondeu João.

– E você acha que conseguirá uma quantia suficiente para matar a sua fome e de sua mãe?

 

João assustado com as palavras do velhinho, perguntou-lhe:

– Como o senhor sabe que irei vendê-la para esse fim?

– Sei isso e muito mais – responde o velhinho.- Fique tranqüilo menino, sei sua triste história e quero lhe propor uma troca.

– Como assim, o que tem a me oferecer em troca da vaca?

– Tenho cinco grãos de feijões mágicos. Com eles, você encontrará aquilo que tanto sonhas. Você tem um sonho não tem menino?

– Sim, tenho. – respondeu Joãozinho.

– E você acredita que ele um dia poderá se realizar.

– Sim, tenho toda certeza.

– Então plante estas sementes, espere e encontrará as respostas.

O negócio foi feito. Como numa mágica o velho com a vaca desapareceu. João ficou assustado procurando ao seu redor sem entender para onde teriam ido. O pensamento de João estava longe, via muitas alegrias para o futuro. Correu com toda velocidade para chegar mais rápido em casa e contar a novidade para sua mãe.

– Mãe, mãe! – gritava João ao aproximar-se de casa.

– Meu filho, já de volta? Conseguiu vender a vaca rapidamente. Fez bom negócio?

– Fique calma mãe e ouça o que tenho pra lhe contar. Não vendi a vaquinha.

– Como assim? Perguntou-lhe sua mãe aflita.

– Conheci um bom velhinho e nós trocamos a vaca por sementes mágicas, ele disse que com elas encontrarei aquilo que mais sonho.

– Mais João, nós não vivemos de sonhos!

João viu a tristeza nos olhos de sua mãe, mas não perdeu as esperanças de dias melhores. Logo que amanheceu João tratou de plantar as sementes do feijão mágico, mas naquele dia nada aconteceu. João ficou decepcionado, resolveu esperar mais um pouco. Á noite, João teve um lindo sonho. Corria no campo com seu pai, soltavam pipas e gritava alto. – Quero ir além das nuvens!

E assim João acordou, ficou pensando no sonho sem entender. De repente deu um pulo da cama e correu para o quintal. Foi então que encontrou um imenso pé de feijão. Curioso, João subiu no pé e não parava mais de subir. Era tão alto, tão alto que João lá de cima começou a ver sua casa sumindo, sumindo, cada vez menor. E quão foi sua surpresa ao chegar ao final do pé de feijão e ver um imenso castelo. Tão imenso que João não alcançava a maçaneta da porta.

Neste momento João ouviu passos que sacudiram o chão de nuvens. Ele escondeu-se ao ver o tamanho do homem que se aproximava e abriu a porta do castelo. Era um homem gigantesco, muito feio, com cara de mau. João teve muito medo, mas não podia fraquejar agora. Lembrava das palavras do velhinho que lhe deu as sementes.

Aproveitando que o gigante deixara a porta do castelo aberta por um instante, João entrou e ficou impressionado com tanta riqueza. Todos os objetos do castelo eram de ouro. O menino ficou hipnotizado quando ouviu o gigante ordenar em alto tom a uma galinha que colocasse mais ovos. A pobrezinha assustada e infeliz pôs-se a sacudir-se e então os ovos, bonitos e dourados iam caindo uma a um. João distraído foi encontrado pela esposa do gigante, mas para sua surpresa a mulher era boazinha, queria protegê-lo do marido, pegou João com carinho e o colocou dentro do forno quando viu que o gigante se aproximava. A mulher sussurrou baixinho:

– Fique quietinho por que se ele o encontrar é um menino morto.

– Com quem você fala mulher? – perguntou o gigante desconfiado.

– Largue de maluquice, falo sozinha – disfarçou a mulher e fingiu limpar o forno.

Até então, João não conseguia entender qual foi o propósito do velhinho ao lhe dar as sementes de feijão. Logo João ouviu um choro vindo de outro cômodo do castelo, tentou ir ver do que se tratava, mas a mulher o impediu. Deu-lhe um saco cheio de moedas de ouro e disse:

– Pegue essas moedas e nunca mais volte aqui.

João pegou as moedas e desceu o enorme pé de feijão de volta a sua casa. Ao chegar, sua mãe o esperava preocupada com seu sumiço. Ao vê-lo o abraçou bem forte dizendo:

– João meu filho, nunca mais saia sem me avisar. Pensei que o havia perdido como aconteceu com seu pai.

João feliz exclamou:

– Mãe, jamais a deixaria ficar sozinha. Olhe o que eu trouxe moedas de ouro.

Sua mãe imediatamente quis saber como João conseguiu tanto ouro. Depois de ouvir o que João tinha a dizer, como uma mãe zelosa que era, quis tirar toda aquela história a limpo e pôs-se a subir no pé de feijão e João foi subindo logo atrás. Ao chegarem ao castelo aconteceu o mesmo antes, a porta ficou entre aberta e os dois conseguiram entrar nas dependências do castelo. Foi então que descobriram a harpa mágica. Os gigantes estavam dormindo, por isso não viram quando João e sua mãe tentavam descobrir um jeito de libertar uma mulher que chorava na dentro da harpa, mas ao analisar com cuidado, perceberam que aquela mulher era a imagem da mãe de João refletida, ela chorava a dor de ver seu esposo preso na harpa. Os dois continuaram com muito sacrifício arrastando a harpa para próximo do pé de feijão. Quando já estavam no meio do caminho o gigante acordou, saiu correndo atrás dos dois, mas era tarde demais, pois conseguiram alcançar o chão e o encanto foi desfeito.

O pai de João libertou-se da harpa e o gigante e o pé de feijão desapareceram no ar. Assim eles seguiram cuidando de suas ovelhinhas e da lavoura que reconstruíram com o suor do trabalho e foram felizes para sempre.

Cirilo – Conto baseado na Pintura em tela de Antônio Parreiras.

22 jan

O tempo havia passado e o cenário daquele balneário corroia-lhe a alma descrente. A tragédia companheira e permanente fora agora mais implacável.
Antes de tal episódio, o estranho amor de Cirilo surpreendia Anabela.
Por que não aceitar um amor que se impõe, se dá, se oferece?
Num dia, a manhã estava com aquele solzinho de inverno e azul. Anabela o esperava escrevendo versos de amor, mas que sua loucura habitual, inflamando seu peito, o impediram mais uma vez de viver tal felicidade.
Enlouquecido de ciúme ao ver Anabela às escondidas com papel e lápis nas mãos, imediatamente recuou. Sem razão para aqueles sentimentos derivados do ciúme, Cirilo sai sem ser visto para afogar as mágoas no copo de conhaque. Em sua face às lágrimas faziam continências e um obscuro olhar lhe franzia a fronte.
Por que o ciúme é capaz de causar em Cirilo um efeito trágico, alimentado de uma incerteza?
A mentalidade doentia e machista de Cirilo o faz pensar que sua esposa, Anabela, teria um amante e em seus pensamentos insanos não cabem outro nome senão seu rival Isaías. O ciúme vai operando aos poucos a sanidade de Cirilo. Mesmo sem provas concretas que poderiam dar como certo o envolvimento entre a amada e Isaías o que está em jogo é conviver com o fato de que sua esposa seja infiel.
Aproveitando-se da fraqueza daquele homem, João Brabo, seu inimigo, não se fez de rogado e tratou de envenená-lo contra Isaías. Contando-lhe das vezes que Anabela o visitou para saber de Isaías.
Naquela noite, Cirilo não volta para casa. Anabela sem nada saber, o procura nas redondezas e logo fica sabendo do estrago que o mesmo provocou em casa de Isaías. Somente João sabia os motivos, que ele mesmo ajudou a criar, mas, bancando de bom moço, levou Anabela para conversar com Isaías, a fim de pedir-lhe desculpas pelo marido. Tudo não passando de um plano para deixá-los a sós. João, malévolo e egoísta, sai em busca de Cirilo para armar sua empreitada final.
João Brabo é do tipo de homem incapaz de aceitar uma perda. No passado a mulher por quem ele dizia suprir amor, o deixara por Isaías. Agora juntando seu rol de inimigos planejava, enfim derrotá-los.

Entretanto, Isaías e Anabela supriam um pelo outro um sentimento fraternal por terem crescidos juntos e serem amigos desde a infância.
O que não impedia João de se valer da situação para prejudicar estes dois homens.
A discórdia estava lançada. Anabela, aflita, aguardava notícias ao lado de Isaías. Enquanto isso, Cirilo seguia ao encontro deles com sua arma em punho. Nada poderia detê-lo de cometer tamanha injustiça. Adentrou a sala de visitas e descarregou sobre eles meia dúzia de tiros. Aos prantos, antes que Anabela desse seu último suspiro, perguntou-lhe:
– Por que me traiu, se eu te amava tanto?
E deixou o local do crime banhado de lágrimas e de sangue. A galope, horas mais tarde, foi pego pela polícia.
Vinte anos se passaram. Aquela cena terrível lhe consumia o ser.
Cirilo não sabia, mas Isaías salvou-se da empreitada e reunia provas de sua inocência junto à Anabela. Procurava com freqüência saber sobre a situação de Cirilo e logo ficou sabendo que a liberdade já se aproximava.
Depois de tantas idas e vindas, desconfiado de toda aquela história, descobriu que aquele que um dia lhe jurara vingança, poderia ser o mentor do ocorrido; levando para sempre sua amiga querida.
Isaías sabia do amor que Anabela supria por Cirilo e que ela era correspondida. Nunca conseguiu tornar-se amigo dele por causa daquela doença chamada ciúmes, e, por vezes, sem querer era o causador de tantas discussões entre o casal. A amiga sempre lhe fazia confissões. Por isso sofria por saber que involuntariamente foi o culpado por esse desfecho. Entretanto, o que não podia aceitar passivamente era o fato de João andar solto enquanto sofriam.
Foi então, que Isaías resolveu visitar Cirilo ainda na cadeia e lhe contar o acontecido. Diferente do que Isaías esperava aquele não era mais o mesmo homem de vinte anos atrás. Envelhecido e calado, Cirilo foi capaz de ouvir toda a história de cabeça baixa. Não pôs o olhar em Isaías. E assim estando, apenas lhe falou:
– De nada importa, pois a minha vida acabou?
O que se sabe daquele encontro, é que nunca mais se falou nesse assunto naquela região, mas logo após sua soltura, o corpo de Cirilo foi encontrado em baixo de imenso céu azul no mesmo lugarejo que essa história iniciou.
E ao longe, vê-se Cirilo jogado no chão…

Conto de verão

22 jan

O sol escaldante não a incomoda. Passa os olhos como uma pantera vigiando os corpos que passam ao sem redor. Pessoas falam sem parar e a fazem desconcentrar-se da leitura que carrega sempre a tira-colo. De repente surge Miguel. Em princípio, pouco interessante, mas muito falante e suficiente. Marta o observa e logo se interessa pelo assunto. Miguel garanhão, percebe seu olhar. Nada comenta com os amigos e joga conversa fora: ” Mulher bonita não tem cor, religião ou idade. Não dispenso. As sufoco com meus beijos e elas pedem mais…”
Marta fecha o livro. Olha para ele de lado e pergunta com uma voz sensual: “Pode dá uma olhadinha em minhas coisas enquanto vou à água? – Incrédulo Miguel diz aos amigos que ela é uma sereia. O quê que é aquela mulher provocante?! Olho tudo dela, mas quero mesmo é tocar. Enlouquecido corre em sua direção. Marta se faz de desentendida e o ignora. Sai da água e suas curvas deixam Miguel ali parado feito um bobão. Suas pernas tremem e não sabe bem o que dizer e a fama de pegador cai por terra.
Marta finge o procurar para agradecer e dá uma piscadinha aos seus amigos. Agradeçam ao seu amigo por tomar conta de minhas coisas, ok meninos?
Miguel corre e diz: “Desculpa, mas é que eu só queria te conhecer. Você é linda! Você tem compromisso esta noite?
– Sim, vou sair com um cara pouco interessante que não perdoa cor, religião ou idade…

%d blogueiros gostam disto: